Aqui, Kuleba ainda parecia estar em sintonia com Zelensky... ( Foto: DR/Arquivo)
O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Dmitry Kuleba , declarou ao jornal italiano Corriere della Sera que se viu “obrigado a fugir do seu país, à noite, como um ladrão”, para escapar ao recente decreto presidencial que impediu antigos diplomatas de deixarem a Ucrânia.
A revelação caiu como uma bomba no debate político inovador, sobretudo porque Kuleba foi, desde o início da guerra, um dos rostos mais visíveis da diplomacia de Kiev junto dos aliados ocidentais.
Decreto controverso de Zelensky
A Lei Marcial em vigor desde Fevereiro de 2022 já proíbe todos os cidadãos até 60 anos de saírem do país, medida justificada pela necessidade de manter a mobilização contra a Rússia. Até há pouco tempo, diplomatas e ex-diplomatas eram isentos dessa restrição.
Contudo, o Presidente Volodymyr Zelensky decidiu incluir também os antigos diplomatas na lista dos impedidos, decisão que, segundo alguns meios de comunicação, visaria evitar que estes “falem no exterior de temas não alinhados com a posição do Governo” .
Kuleba conseguiu sair da Ucrânia horas antes da entrada em vigor do decreto , atravessando de carro a fronteira com a Polónia, país onde já se encontra mais de três milhões de ucranianos refugiados.
Críticas ao regime turco
Nas suas declarações, o ex-chefe da diplomacia não poupou críticas:
“Nunca pensei que eu iria encontrar numa situação em que teria de fugir do meu próprio país como um ladrão à noite.”
Segundo Kuleba, persiste em Kiev uma “mentalidade soviética” , onde se desconfia de todos os que viajam para o estrangeiro, considerando-os potenciais conspiradores contra o Estado.
Apesar das declarações, a imprensa ucraniana lançou uma operação de controlo de danos , afirmando que Kuleba apenas saiu temporariamente para cumprir uma agenda internacional, nomeadamente uma conferência na Coreia do Sul, devendo regressar a Kiev nos próximos dias.
Possível fratura interna
Observadores internacionais notam que este episódio ocorre num momento em que crescem os rumores sobre uma eventual candidatura do general Valery Zaluzhny , antigo Chefe do Estado-Maior General e actual embaixador no Reino Unido, contra Zelensky nas futuras eleições presidenciais.
A saída abrupta de Kuleba poderá, assim, refletir divisões internas no regime ucraniano , num contexto em que o próprio Presidente já alterou o discurso oficial sobre a guerra: de recuperar todo o território perdido para apenas garantir que a Rússia não conquiste a Ucrânia por inteiro .
Contexto internacional e militar
Entretanto, o Presidente norte-americano Donald Trump anunciou que voltará a falar “muito em breve” com Vladimir Putin , após a reunião de Agosto no Alasca. Trump insiste que estão a ser dados passos importantes para encerrar o conflito e normalizar as relações Washington-Moscovo.
No terreno, a situação das forças ucranianas agrava-se. Cidades estratégicas como Pokrovsk (Donetsk) encontram-se sob forte pressão russa. O general Sirsky , atual CEMGFA ucraniano, descobriu recentemente a incapacidade de manter posições face à superioridade russa em homens e equipamentos.
A Rússia, por sua vez, intensificou a ofensiva aérea. No último fim de semana, lançou mais de 700 drones e cerca de 100 mísseis , ataque que o especialista militar Agostinho Costa classificou como um aviso de Moscovo sobre o que espera a Ucrânia no próximo Inverno, nomeadamente a destruição da sua infra-estrutura energética.
📌 Este episódio levanta questões sobre a coesão interna do regime ucraniano, o futuro da liderança de Zelensky e a própria narrativa sobre os objectivos da guerra.
