Luanda – A saída de Joel Leonardo do cargo de Presidente do Tribunal Supremo de Angola foi precipitada pela descoberta de uma rede de tráfico de sentenças, que estaria a tentar negociar um desfecho favorável para os generais Manuel Vieira Dias “Kopelipa” e Leopoldino do Nascimento “Dino”, em troca de contrapartidas.
As Provas Apresentadas
As autoridades, que já acompanhavam os contactos filmados, apresentaram as gravações ao Presidente João Lourenço.
Nas imagens, Joel Leonardo e o seu círculo próximo apareciam em negociações com indivíduos que se faziam passar por emissários dos generais.
Não se sabe se “Kopelipa” e “Dino” tinham conhecimento da iniciativa ou se os seus supostos representantes agiam de forma independente.
Reunião no Palácio Presidencial
Ao tomar conhecimento das gravações, João Lourenço convocou uma reunião de emergência no dia 27 de agosto, no Palácio Presidencial.
Foram chamados 17 altos dirigentes, entre os quais:
-
Presidentes dos Tribunais Constitucional e de Contas;
-
Ministro de Estado e chefe da Casa Civil, Adão de Almeida;
-
Diretor de gabinete, Edeltrudes Costa;
-
Dirigentes do MPLA, como Paulo Pombolo e João “Ju” Martins;
-
O jurista Carlos Feijó.
Joel Leonardo foi o último a chegar e acabou confrontado com as provas, incluindo um vídeo onde prometia atrasar o processo dos generais até 2027, garantindo que a juíza responsável, Anabela Valente, era da sua confiança.
Num trecho sensível da gravação, Leonardo teria falado de forma desconsiderante sobre o Presidente da República.
Renúncia ao Cargo
Diante do material apresentado, João Lourenço acusou-o de traição.
Visivelmente abatido, Leonardo deixou a reunião e, horas depois, assinou a sua renúncia no gabinete, sem resistência.
No dia seguinte, tentou mobilizar apoios para reverter a decisão, mas não obteve sucesso.
Diferente de episódios anteriores em que foi perdoado, desta vez Lourenço determinou que a PGR reabrisse o processo n.º 63/2023-DNIAP por corrupção, que poderá levá-lo a ser constituído arguido.
Histórico de Escândalos
A rede de tráfico de sentenças de Joel Leonardo já vinha sendo monitorada desde 2022, após uma tentativa de extorsão ao ex-ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás, liderada pelo sobrinho de Leonardo, o major Silvano António Manuel, então chefe da sua escolta.
Silvano exigiu 3,5 mil milhões de kwanzas (cerca de USD 5,8 milhões) para que Tomás não voltasse à prisão.
Condenado a dois anos de prisão por extorsão, pediu perdão ao ex-ministro.
Outros episódios também vieram à tona, incluindo negociações com réus do “caso Lussaty”, em que reduções de pena teriam sido oferecidas em troca de património no estrangeiro.
Património em Portugal
Entre os benefícios obtidos pela rede, estariam imóveis em Coimbra e Cascais, recebidos por Leonardo e pelo juiz cúmplice Daniel Modesto Geraldes.
Parte do património estaria em nome da colaboradora Juelma Baptista e de um filho de Leonardo residente em Portugal.
O advogado Carlos Salombongo, considerado figura-chave no esquema e parente de Juelma, encontra-se atualmente em Portugal, com previsão de regressar em breve.
📌 Fonte: Club-K.net
